Notícias

Perguntas e respostas: Por que as mulheres não dão bênçãos cura?

Por quase cem anos, mulheres da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias podiam dar bênçãos de cura, com óleo consagrado e imposição de mãos. Hoje, essas bênçãos são dadas exclusivamente por portadores ordenados do sacerdócio. O que aconteceu no meio do caminho?

Essa é a pergunta que me levou a um estudo de 85 páginas escrito pelo historiador Jonathan Stapley em coautoria com Kristine Wright, chamado “Female Ritual Healing in Mormonism” (“Cura Ritual Feminina no Mormonismo”), publicado no Journal of Mormon History. O que encontrei ali muda a forma como enxergo essa história.

Como tudo começou

A cura ritual feminina na Igreja remonta a Kirtland, Ohio, ainda na década de 1830. Em 1838, quando Wilford Woodruff ficou doente, foi sua esposa quem lhe deu uma bênção. Já em 1837, bênçãos patriarcais chegaram a instruir mulheres especificamente a administrar aos enfermos pela imposição de mãos, e elas o faziam.

Era uma parte normal da cultura dos santos dos últimos dias: nem as mulheres, nem muitas vezes os próprios homens, invocavam autoridade do sacerdócio ao abençoar. Homens abençoavam mulheres, mulheres abençoavam homens, pais abençoavam filhos. Bastava ter fé em Cristo para participar.

Em 28 de abril de 1842, Joseph Smith fez um discurso histórico à Sociedade de Socorro em Nauvoo sobre a prática de mulheres imporem as mãos sobre os enfermos.

Segundo a ata da reunião, registrada por Eliza R. Snow e preservada no Joseph Smith Papers, projeto oficial que reúne os documentos históricos do profeta, ele afirmou que não haveria mal algum nisso, contanto que Deus desse Sua aprovação por meio da cura, e que não haveria mais pecado em uma mulher impor as mãos sobre um enfermo do que em molhar seu rosto com água. Bastava ter fé, disse ele, tanto de quem abençoava quanto de quem era abençoado.

Essa cultura de cura feminina só se fortaleceu quando os santos se mudaram para o oeste, rumo a Utah. Tanto homens quanto mulheres eram amplamente reconhecidos na Igreja como curadores. Mulheres em Utah chegavam até a lavar, ungir e abençoar outras mulheres grávidas antes do parto, uma prática que se tornou extremamente comum e era endossada pela liderança da Igreja.

Imagem de Brigham Young, um dos presidentes da Igreja que manteve as mulheres dando bênçãos cura.

Os profetas seguintes também apoiavam

Seria de se imaginar que Brigham Young, sucessor de Joseph Smith, tivesse posto um freio nessa prática. Não foi o caso, ele a incentivou em diversas ocasiões. Em 1869, ele ensinou às mulheres, segundo registro publicado no Journal of Discourses e discutido em um artigo sobre a relação de Brigham Young com a medicina, que era privilégio delas repreenderem a doença sem precisar chamar os élderes, e que era privilégio de uma mãe ter fé e administrar ao próprio filho.

Já em 1880, o sucessor de Brigham Young, John Taylor, enviou uma carta reafirmando novamente o papel das mulheres em administrar aos enfermos. Ou seja: Joseph Smith aprovava, Brigham Young aprovava, John Taylor aprovava, e Wilford Woodruff também aprovava. Ficava cada vez mais claro que essa era uma prática de longa data, amplamente disseminada e endossada pelos líderes.

Então, o que mudou?

Não existiu uma única revelação marcante que provocou uma mudança repentina de política. A realidade é que uma combinação de diferentes fatores foi, aos poucos, corroendo essa prática ao longo do tempo. Quatro desses fatores se destacam.

1. Mudança de linguagem

Em 1900, a presidência da Sociedade de Socorro escreveu à Primeira Presidência perguntando se as irmãs tinham o direito de “selar” a unção, sem usar nenhuma autoridade, mas em nome de Jesus Cristo, ou se homens portadores do sacerdócio deveriam ser chamados para isso.

A resposta, transmitida pela presidente geral da Sociedade de Socorro, confirmou que as irmãs podiam ungir e selar a unção, mas trouxe uma ressalva: o próprio presidente Joseph F. Smith havia manifestado que, em sua opinião, a palavra “selar” não deveria ser usada pelas irmãs, e que a palavra “confirmar” poderia substituí-la, usada não de forma autoritativa, mas no espírito de invocação.

Não fica claro, à época, qual era exatamente a diferença entre “selar” e “confirmar”, mas, na prática, a mudança passou a mensagem de que o ideal era a participação de portadores do sacerdócio nas bênçãos de cura.

A mudança foi controversa: uma proeminente integrante da Sociedade de Socorro chegou a observar que, se as mulheres não pudessem selar, milhares de membros da Igreja estariam vivendo sob um grave engano. Ainda assim, a mudança foi adotada, e a prática das irmãs selando unções foi diminuindo ao longo das duas décadas seguintes.

2. O que virou escritura oficial (e o que não virou)

O discurso fundamental de Joseph Smith de 1842 nunca foi canonizado. Já Doutrina e Convênios 42, que enfatiza o chamado aos élderes da Igreja para administrar aos enfermos, assim como Tiago 5 no Novo Testamento, foi.

Assim, em 1903, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze decidiram que a prática ficaria restrita aos élderes, ainda que, em caso de absoluta necessidade, um portador do Sacerdócio Aarônico ou até mesmo um membro leigo pudesse participar, se essa fosse a única opção disponível.

Mesmo assim, em 1905 o próprio periódico da Sociedade de Socorro continuava priorizando a bênção aos enfermos, e cópias do discurso de 1842 de Joseph Smith foram publicadas nos periódicos da Sociedade de Socorro de 1913 e 1915.

3. Concorrência institucional

No início da Restauração, os santos dos últimos dias eram a única igreja americana com uma cultura institucionalizada de cura ritual, tanto católicos quanto protestantes já haviam abandonado a prática da unção para cura dos enfermos.

Mas, no final do século XIX, isso começou a mudar: rituais de unção e cura passaram a se popularizar dentro do protestantismo, especialmente entre os pentecostais. Para reforçar o que tornava a oferta da Igreja única, os líderes passaram a associar cada vez mais a cura à autoridade do sacerdócio.

Um editorial de 1906 do periódico The Elder’s Journal, por exemplo, afirmava que, embora Deus estivesse disposto a responder às orações fervorosas e fiéis de Seus filhos, a cura pela autoridade do sacerdócio era o caminho marcado pelo Senhor. Mais uma vez, a mensagem transmitida era de que as bênçãos pelo sacerdócio representavam o ideal.

4. A prática que ficou de fora das regras escritas

À medida que a Igreja crescia e amadurecia, precisou passar por um processo de formalização e codificação de suas práticas. Mas a codificação da cura ritual feminina praticamente ficou de fora desse processo, tornando-se uma questão de tradição popular, transmitida oralmente, em vez de sobreviver como uma prática formal e institucionalizada, enquanto os líderes trabalhavam para estruturar os deveres dos quóruns do sacerdócio.

Assim, as bênçãos de cura foram se tornando ainda mais exclusivamente ligadas à autoridade do sacerdócio. Contrariando a prática de longa data, o presidente Charles W. Penrose ensinou em uma Conferência Geral de 1921 que as mulheres não deveriam ser separadas para administrar aos enfermos, já que esse papel pertencia aos élderes da Igreja.

Nessa mesma época, as bênçãos de cura feitas por homens e mulheres foram descontinuadas no templo, e a Junta Geral da Sociedade de Socorro determinou que as mulheres deveriam administrar apenas em casos de gestantes, e apenas quando não fosse possível recorrer ao sacerdócio.

Em 1946, o quadro havia avançado ainda mais. O apóstolo Joseph Fielding Smith escreveu que, embora as autoridades da Igreja tivessem estabelecido ser permitido, sob certas condições e com a aprovação do sacerdócio, que irmãs lavassem e ungissem outras irmãs, elas sentiam que era muito melhor seguir o plano que o Senhor havia dado e chamar os élderes da Igreja para vir administrar aos doentes e aflitos.

Essa instrução foi enviada aos líderes locais e permaneceu incluída no Manual da Sociedade de Socorro por décadas. Com o tempo, a geração familiarizada com a cura ritual feminina foi falecendo, e a prática foi se apagando junto com ela.

Mulheres da Igreja

O que essa história ensina

Um artigo mais recente publicado pela Igreja, sobre “Serviço e Liderança das Mulheres na Igreja”, confirma esse histórico: no passado, mulheres davam bênçãos de cura em nome de Jesus Cristo sem invocar autoridade do sacerdócio, uma prática documentada desde os primeiros anos da Igreja.

O historiador Jonathan Stapley também trata do tema com mais profundidade em outro estudo, “Pouring in Oil”: The Development of the Modern Mormon Healing Ritual, publicado pelo Religious Studies Center da BYU.

Eu sempre pensei que as bênçãos exigissem, por natureza, a autoridade do sacerdócio para funcionar. Mas a nossa própria história sugere outra coisa: parece que dar bênçãos é uma tarefa que foi delegada, ou atribuída, a portadores do sacerdócio. Será que essa atribuição poderia mudar novamente no futuro?

Não vejo por que não! Ao mesmo tempo, o fato de algo ter sido feito de forma diferente no passado não significa que a política atual seja errada ou não inspirada. Não sei o que o futuro reserva, mas entender o nosso passado tem me ajudado a fazer muito mais sentido do presente.

Fonte: Keystone

Veja também

Post original de Maisfé.org

O post Perguntas e respostas: Por que as mulheres não dão bênçãos cura? apareceu primeiro em Portal SUD.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *